Câmara avança em projeto que classifica facções como terroristas após governo alegar entrave legal

Câmara avança em projeto que classifica facções como terroristas após governo alegar entrave legal
Publicado em 27/05/2025 às 22:25

O site GN Comunicação e Notícias divulgou recentemente que, após um pedido dos Estados Unidos, o governo brasileiro declarou haver impedimentos legais para rotular facções criminosas como organizações terroristas. A declaração oficial, feita por meio do Ministério das Relações Exteriores, foi uma resposta à solicitação norte-americana para que grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) fossem incluídos em uma lista internacional de entidades terroristas.

Segundo o Itamaraty, a legislação brasileira atual — especificamente a Lei nº 13.260/2016, que trata dos crimes de terrorismo — não permite aplicar esse enquadramento jurídico a organizações criminosas nacionais, mesmo que armadas, violentas e estruturadas. O posicionamento chamou atenção no cenário político e reacendeu o debate sobre a necessidade de atualizar o marco legal brasileiro diante do avanço do crime organizado.

Poucos dias após essa declaração, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que busca justamente preencher essa lacuna, incluindo facções e milícias armadas como possíveis agentes de terrorismo. O projeto, de autoria do deputado Rodrigo Valadares (União-SE), foi relatado pela deputada Caroline de Toni (PL-SC) e aprovado por 21 votos a 7.

Proposta amplia conceito de terrorismo e foca no “narcoterrorismo”

A proposta altera o artigo 2º da Lei Antiterrorismo para prever que “organizações criminosas armadas, inclusive milícias e facções, que utilizem violência ou grave ameaça para provocar terror social ou generalizado” possam ser enquadradas como terroristas. Segundo a relatora Caroline de Toni, a intenção é atualizar a legislação diante do “narcoterrorismo” que, segundo ela, já é realidade no país.

“O Estado brasileiro precisa agir com firmeza diante do poder territorial e do armamento pesado usados por essas organizações. Isso não é mais só crime organizado, é terrorismo contra a população”, afirmou a deputada.

A medida é vista por seus defensores como resposta tanto à escalada da violência urbana quanto à cobrança internacional por uma ação mais dura contra essas organizações, como evidenciado no pedido dos EUA ao governo Lula.

Oposição vê risco à liberdade de expressão e criminalização de movimentos

Parlamentares da oposição, no entanto, alertam para os perigos da ampliação do conceito de terrorismo. O deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) disse temer que a nova redação da lei possa abrir brechas para criminalizar protestos, movimentos sociais ou ações coletivas legítimas, sob alegações vagas de ameaça à ordem.

“Não podemos criar um instrumento jurídico que possa ser usado, futuramente, para perseguir dissidências políticas”, pontuou Vieira.

Setores do Ministério Público também já manifestaram preocupações semelhantes, destacando que o uso indevido da legislação antiterrorismo pode configurar abuso de poder e violação de direitos civis.

Disputa jurídica e política em curso

Enquanto o governo federal indica que mudanças legislativas seriam necessárias para atender à solicitação dos EUA, o Congresso Nacional acelera a tramitação de um projeto que poderia, justamente, suprir esse vácuo legal.

A proposta segue agora para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de ir a plenário. Se aprovada, poderá modificar significativamente a política de segurança pública do país e a forma como o Brasil se posiciona internacionalmente no combate ao crime organizado.

A discussão evidencia não apenas a urgência de repensar os instrumentos legais à disposição do Estado, mas também os limites e riscos de uma legislação que precisa equilibrar firmeza contra o crime e respeito às liberdades democráticas.